CARTOGRAFIA DOS INDÍCIOS AMBIENTAIS E A CONSTRUÇÃO DE MAPAS SOCIOEDUCATIVOS RIBEIRINHOS.
Francisco Perpetuo Santos Diniz[1]
Resumo:
As populações tradicionais amazônicas, especialmente ribeirinhas, criam e recriam um conjunto de mapas socioeducativos e ambientais pautados na interação, observação, leitura e uso da natureza, fatos que indicam para a construção da Cartografia dos Indícios Socioambientais. A sistematização destas cartografias seguiram os fundamentos teóricos inscritos nos 5 Volumes da obra “Mil Platôs” de Deleuze e Guattari e nas análises apontadas no Método Indiciário definido por Carlo Ginzburg que contraria procedimentos do Conhecimento Científico Hegemônico e Ocidental. Assim, estas sistematizações cartográficas expressaram registros de processos estruturados em indícios, sinais, pistas, sintomas e vestígios emanados de relações sustentáveis entre socialização ribeirinha e natureza.
Palavras-Chaves: Cartografias, Mapeamentos e Saberes Socioambientais.
- Introdução
O presente texto analisa o contexto de construção de mapeamentos de práticas socioeducativas ambientais de populações tradicionais amazônicas, especialmente ribeirinhas que cotidianamente criam e recriam um conjunto de mapas emanados a partir da socialização comunitária e interação com a natureza.
Esta proposta de investigação científica contrapõe-se as ditadas pelas normatizações da ciência oficial que estipula um planejamento fechado, a construção de hipóteses, a delimitação de objetivos, a neutralidade científica, a mensuração de dados e a rigidez na coleta e análise de informações.
Este trabalho apresenta a “Cartografia dos Indícios Socioambientais” expresso na vivência do trabalho de campo com populações tradicionais amazônicas, no registro de informações singulares, na sistematização cotidiana de práticas educativas ribeirinhas feitas a partir da leitura e análise de indícios, vestígios, sintomas e sinais originados na natureza.
Portanto, esta proposta de investigação não segue normas estandartizadas, é flexível, rizomática e inova no fazer pesquisa em contextos socionaturais amazônicos.
- “A Cartografia dos Indícios Socioambientais”
Fundamentada na cartografia oficial que impõe como regra metodológica para a edificação de mapas a representação da realidade a partir da consideração da legenda (ícones que facilitam a leitura de mapas), da escala (permite a análise das distâncias), das projeções (orientam nas distorções das áreas representadas), o procedimento cartográfico de Boaventura de Souza Santos (2011) propõe o reconhecimento da representação social feita através da denominação cartografia simbólica.
Esta proposta de cartografia tem como referência as metáforas da Cartografia do Direito e a Cartografia do Modelo de Ciência Dominante que impõe uma série de regras, normas e valores à sociedade tornando invisíveis propositalmente outras formas de saberes e conhecimentos num modelo sócio-científico abissal tanto geograficamente pelo fato do modelo de ciência ocidental ter sido gerado na Europa e ter sido ratificado nos países anglo-saxões desconsiderando a produção de conhecimentos de outras partes do mundo e metaforicamente pela desconsideração de saberes e conhecimentos que se encontram tanto nos países do Hemisfério Sul como os localizados no interior dos países do Hemisfério Norte: os saberes populares, filosóficos, artísticos, éticos, religiosos, entre outros.
A cartografia simbólica de Santos possui um modelo rígido, determina que os fenômenos sociais sejam regidos pela variável distorção. Dessa forma, o Direito e a Ciência teriam a função de distorcer e determinar normas e regras sociais a partir da escala que perpassaria pela espera local à internacional; ambos possuiriam símbolos que representariam o poder, a exemplo dos criados pelo Estado Nacional para ilustrar sua atuação, força e competência e os utilizados pela ciência que estabelece normas e padrões de investigação dos fenômenos, especialmente os realizados a partir de propostas positivistas.
A cartografia de Santos funcionaria feito uma lupa cuja função seria a execução da distorção no objeto observado. Assim, quando a lupa é aproximada a um ponto permite uma visualização detalhada e quando afastada promove novamente uma distorção. De forma similar o Direito e a Ciência teriam a função de distorcer a realidade social e dar visibilidade àquilo que lhes fossem convenientes a manutenção e reprodução do poder.
Outro procedimento cartográfico de grande valia para análise dos fenômenos sociais e cuja metodologia não se fundamentou em regras fixas da cartografia oficial, foi definido por Carlo Ginzburg, pesquisador italiano que propôs a investigação de fenômenos sociais e naturais a partir da busca de indícios, sinais, vestígios, sintomas. Estas palavras chaves fundamentaram o que Ginzburg denominou de Paradigma Indiciário.
Ressalta-se que no período do Neolítico a busca de detalhes e pistas era uma prática comum nos afazeres cotidianos da sociedade de caçadores e coletores. Os grupos nômades quando realizavam a caça procuravam identificar a localização, o tipo e o tamanho dos animais a partir das fezes deixadas nos caminhos, das pegadas marcadas no chão, dos pêlos soltos nas gramas e pedras. Quando realizavam a coleta de frutas e sementes faziam a leitura da paisagem, ou seja, percebiam que determinadas áreas geográficas eram mais propícias à localização daquilo que procuravam. Ao realizarem tarefas associadas ao banho, à realização de reuniões, festejos, descansos, entre outras, dedicavam-se, além da leitura da paisagem, a observação sistemática do tempo, das correntes de ventos, dos movimentos que os ventos imprimiam às nuvens, às mudanças de temperaturas e climas, a incidência dos raios do Sol, os movimentos da Lua e das estrelas.
Os grupos primitivos eram profundos admiradores, estudiosos e conhecedores da natureza. Fazia circular no interior dos agrupamentos um conjunto de saberes apreendidos nas vivências diárias e nas constantes interações com o meio físico.
Carlo Ginzburg (1989) acreditava que as os vários ramos do saber se entrelaçavam, sem hierarquias, sem privilégios. A não visibilidade dos saberes populares, venatórios, indiciários, artísticos entre outros faziam parte de um conjunto conectado de conhecimentos que:
Podemos comparar os fios que compõem esta pesquisa aos fios de um tapete. Chegamos a este ponto, veno-los a compor-se numa trama densa e homogênea. A coerência do desenho é verificável percorrendo o tapete com os olhos em várias direções (GINZBURG, 1989, p. 170).
Assim, para Ginzburg (1989) o tapete representaria os pensamentos semiótico, divinatório, indiciário e venatório centrados num modelo epistemológico comum, mas heterogêneo devido estarem inseridos em várias estruturas de saberes complexos que se completavam e que estavam marginalizados pela fora positivista de se produzir ciência.
O pensamento de Ginzburg se assemelha muito a noção de rizoma definida por Deleuze e Guattari (1995) onde os conhecimentos se fundem, se articulam se expandem num processo contínuo de transformação, de territorialização e de desterritorialização.
Em Deleuze e Guattari (1995) a cartografia adquire flexibilidade nos processos de mapeamentos e tem relação com a descrita por Ginzburb (1989). A produção de cartografias para os autores teria por fundamento o acompanhamento de pistas, construção de processos que nunca se esgotariam, da multiplicidade, heterogeneidade e recusa a adoção de modelos ou parâmetros rígidos na análise dos fenômenos sociais. Entre as expressões “chaves” da cartografia deleuze-guattariana estariam aquelas que se direcionam: ao acompanhamento de pistas e processos, rizoma, multiplicidade e territorializações e reterritorializações.
Seguir as plantas: começando por fixar os limites de uma primeira linha segundo círculos de convergência ao redor de singularidades sucessivas; depois, observando-se, no interior desta linha, novos círculos de convergência se estabelecem com novos pontos situados fora dos limites e outras dimensões. (DELEUZE e GUATTARI, p. 20, vol. 1).
Deleuze e Guattari (1995) consideram o porvir, o fazer e refazer, a diversidade, o múltiplo, a conexão, heterogeneidade, as relações e contradições dos fenômenos sociais. Fundamentam o conceito de rizoma cujo termo é originário da botânica e que tem o sentido de raízes agrupadas que nunca param de crescer e entrelaçar-se, assim como ocorre com os saberes e formas não dominantes de produzir ciência e conhecimento.
O rizoma para Deleuze e Guattari pode ser comparado à noção de tapete definido por Ginzburg (1989) onde os vários saberes como: a Arte, a Filosofia, a Ciência Dominante, a Religião, o Senso Comum e os Conhecimentos Populares estariam integrados. Neste sentido, os fios de tapete poderiam ser comparados as raízes de uma planta, onde cada filamento da raiz se integraria se articularia e não pararia de crescer e multiplicar-se.
- Rizoma como Fundamento da cartografia de Deleuze e Guattari
Na obra Mil Platôs (Vols. 1-5) de Deleuze e Guattari (1995-97) o conceito de rizoma é detalhado e se relaciona com a problematização de fundamentações teóricas relacionadas aos padrões científicos impostos quando se analisam a estrutura de organização da sociedade e dos fenômenos socionaturais. Em Mil Platôs Fica evidente a relativização das formas como o estado produz, impõe e produz subjetividades, como as ciências padronizam procedimentos da construção do conhecimento e como o agir e pensar humanos são coagidos por instrumentos de manipulação e forjamento de identidades.
Vale destacar que a idéia de rizoma advém das ciências biológicas que o define como um agrupamento de raízes em constante crescimento. Contudo, o rizoma para Deleuze e Guattari (1995. Vol. 1) é utilizado na perspectiva metafórica indo para além do foco natural e tem como sentido a construção de processos que se desenvolvem de forma integrada, não dicotômica, mas que evidenciam inter-relações e modificações.
Quando os autores discorrem sob a dinâmica de formação de territórios evidenciam a territorialização e desterritorialização. Para Deleuze e Guattari (1997. Vol. 5) a desterritorialização é a construção de um novo território que se forma a partir do território antigo. Este processo também explicaria à formação de conceitos nas ciências, visto que os conceitos nunca seriam “puros” ou novos, sempre se formaria a partir de discussões anteriores.
Para Deleuze e Guattari (1995), o rizoma expressa a própria cartografia que é conexa, heterogênea, múltipla, desterritorializadora e reterritorializadora, decalque e mapa. Assim, definiram a noção rizomática:
Um rizoma: diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços de mesma natureza; ele põe o jogo o regime de signos muitos diferentes, inclusive estados de não signos; o rizoma não se deixa reconduzir nem ao uno nem ao múltiplo. Ele não é o uno que se torna dois, nem mesmo que se tornaria diretamente três, quatro ou cinco etc. Ele não é múltiplo que deriva do uno... Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda (Ibid., p. 32, vol. 1).
A conexão é o primeiro princípio do rizoma e representa as interseções entre os filamentos ou “raízes” que se integram. O que marca este princípio cartográfico é a capacidade de articulação. A articulação pode ser relacionada aos saberes científicos dominantes e os saberes populares. Neste caso a integração não envolveria dominação ou subordinação, mas simetria e igualdade.
O segundo princípio do rizoma ou da cartografia é a heterogeneidade caracterizada pela multiplicidade de linguagens diferentemente do que estabelece a padronização de códigos e linguagens de gramáticas oficiais.
A multiplicidade forma o terceiro princípio do rizoma. O procedimento cartográfico neste item implica acompanhar e construir processos variados, estar apto a mudança.
O quarto princípio do rizoma é a desterritorialização e reterritorialização expresso na ruptura a-significante. Segundo Deleuze e Guattari (1995) o corte não implica no fim do rizoma, mas a possibilidade do porvir. Portanto, a ênfase ao corte representa a criação de estruturas fixas, desconsiderando o processo em curso:
Seguir sempre o rizoma por ruptura, alongar, prolongar, revezar a linha de fuga, fazê-la variar, até produzir a linha mais abstrata e a mais tortuosa, com n dimensões com direções rompidas. Conjugar os fluxos desterritorializados (Ibdem, p. 20, vol. 1).
O quinto princípio do rizoma é formado pelo decalque expresso pelo “fim” do rizoma. O decalque é o rizoma momentaneamente congelado. Contudo, a relação decalque e rizoma não é mediada pela dicotomia e contradição. Pelo contrario, o decalque pode dar origem ao rizoma ou ser formado a partir da ênfase ao corte no rizoma.
O princípio cartográfico do decalque relaciona-se a análise do modelo ciência dominante que desconsidera outras formas de conhecimentos, as especializações maciças de disciplinas ou ramos de conhecimentos e a “hegemonia” das ciências exatas e naturais sobre as sociais.
Por fim, o mapa é o sexto princípio do rizoma formado a partir da teia, complexidade e descrição do “formato” que o rizoma tomou. Vale ressaltar que o mapa não representa o término do rizoma, mas o entendimento do processo em curso, da sistematização próprio rizoma.
- Cartografia dos Indícios X Cartografia dos Rizomas: Aspectos Metodológicos
Para Passos (2009) “Cartografar é habitar um território existencial”. A habitação de territórios existenciais[2] implica no reconhecimento de variadas experiências sociais. Numa pesquisa de campo que apresenta aspectos metodológicos baseados em aspectos qualitativos é recorrente a vivência de territórios existenciais.
Na pesquisa de campo, o pesquisador deve realizar um processo de imersão prolongado no espaço físico onde a pesquisa vai ser realizada. Neste caso, a inserção em campo não determina o início da pesquisa, pois a pesquisa começa a partir da construção do fato gerador, ou seja, daquilo que motivou o pesquisador a realizar o trabalho de pesquisa, ou seja, dos primeiros contatos feitos com os sujeitos e espaços físicos selecionados para o desenvolvimento da pesquisa. Neste primeiro momento o pesquisador desconsidera pré-conceitos e pré-noções anteriormente introjetados e que são revisados a partir do conhecimento prévio do objeto de estudo.
A inserção a campo busca familiarização com os sujeitos da pesquisa, o conhecimento da dinâmica sociocultural e econômico-ambiental local, significa sair da superficialidade e engajar-se na realidade a ser estudada. A vivência em campo não está diretamente relacionada à quantidade de dias ou horas que se deve passar no lócus de estudo, mas da capacidade de saber o momento certo para dar continuidade as atividades anteriormente planejadas, de entender as situações, de realizar a leituras das expressões corporais dos sujeitos, de saber recuar e avançar, de não preocupar-se exclusivamente com a coleta de dados, de demonstrar a relevância dos prováveis resultados da pesquisa para os entrevistados, de viver momentos e situações singulares de forma ética, amigável e profissional.
A cientificidade é apenas uma parte não hierárquica da pesquisa. Caso contrário, legitimaremos as regras do método de ciência dominante onde a cientificidade objetiva a neutralidade que rege o início, o meio e fim das ações.
Conhecer os sujeitos em estudo significa engajar-se e comprometer-se com aquilo que se observa e adentrar os caminhos trilhados no processo de conhecimento e compreender que a pesquisa cartográfica não se faz de forma superficial, mas em parte se caracteriza em vivências em territórios que expressem os sentidos da existência e socializações de saberes. .
Portanto, para um maior entendimento da dinâmica do cotidiano das populações “tradicionais” ou ribeirinhas, camponesas, rurais, extratoras, quilombolas e das que desenvolvem processos socioeducacionais em seus cotidianos torna-se preciso estreitar a presença e relação com os sujeitos da pesquisa. Para Kastrup (2009. p. 73):
Cartografar é acompanhar processos procurando apontar que a processualidade está presente em cada momento da pesquisa. A processualidade se faz presente nos avanços e nas paradas, em campo, em letras e linhas, na escrita, em nós. A cartografia parte do reconhecimento de que, o tempo todo, estamos em processos, em obra. O acompanhamento de tais processos depende de uma atitude, de um ethos, e não está garantida de antemão. Ela requer aprendizagem e atenção permanente, pois sempre podemos ser assaltados pela política de pesquisadores cognitivista: aquele que se isola do objeto de estudo na busca de soluções, regras invariantes. O acompanhamento dos processos exige também a produção coletiva do conhecimento
A construção de processos sociais com os sujeitos em estudo pressupõe a construção de teias de relações a partir de movimentos permanentemente desenhados e mapeados. O registro cartográfico desenvolvido é entendido como a leitura momentânea de fenômenos em constantes transformações. O registro cartográfico une processos anteriores e atuais (KASTRUP, 2009, p. 58). Aliás, o processo cartográfico não é um modelo a ser seguido, não apresenta etapas rígidas a serem vencidas. A cartografia é o mapa de um rizoma passível de conexões, mutações e reformulações.
Os momentos considerados “chaves” para a construção da pesquisa devem ser detalhadamente descritos, pois a cartografia prima por detalhes, por evidências, por sintomas, por pistas. “Para o cartógrafo o importante é a localização de pistas, de signos de processualidade” (KASTRUP, 2009. 25).
A pesquisa é a oportunidade dos sujeitos socializarem suas produções culturais, suas formas de vida, seus anseios e angústias. Na verdade existe uma relação de troca. Utilizamos dos sujeitos para desenvolvermos nossas pesquisas e os entrevistados se aproveitam das falas para “aparecerem” e evidenciarem suas estórias.
Desvendar os fenômenos e seguir a realidade através do paradigma indiciário proposto por Ginzburg (1989) é priorizar a intuição frente à razão. Os fenômenos são visibilizados por intermédio do acompanhamento de pistas e indícios. De acordo com o paradigma indiciário o foco maior de pesquisa é traçado a partir do acompanhamento de detalhes que levam a decifrar a complexidade do real. As minúcias, as observações, as adivinhações, as experiências, as pistas, são agrupadas, examinadas e sistematizadas objetivando a montagem de um grande “quebra-cabeças” rumo à edificação de um mapa, de um rizoma.
- Práticas Socioeducativas ambientais Ribeirinhas na Comunidade Igarapé Grande – Ilha João Pilatos/Ananindeua-Pa.
A comunidade ribeirinha de Igarapé Grande, localizada na Ilha João Pilatos em Ananindeua-Pa apresenta um conjunto de práticas sócio-educativas edificadas a partir observação e interação da natureza. A “cartografia dos indícios socioambientais” está inscrita nas formas como os moradores se relacionam com as águas, com a mata, com o meio físico e social. Os ilhéus veem a natureza de forma rizomática, múltipla e diversa, diferentemente da noção de natureza enquanto reserva de recursos naturais. A natureza para os ribeirinhos é configurada como a extensão de suas vidas, como o caminho para produção da cultura e socialização comunitária.
Os moradores são hábeis observadores dos indícios das mudanças naturais e frequentemente observam sinais, sintomas e pistas inscritas nas transformações da terra, do vento e das águas que resultarão em mudanças no meio físico local e consequentemente nas relações sociais mantidas com a natureza.
A observância da chegada dos períodos chuvosos, do inverno, dos dias úmidos, das ocorrências das chuvas de verão, da umidade do ar e “mormaços” é uma prática recorrente iniciada no seio familiar. Conhecer os pormenores das mudanças climáticas, dos indícios dos anúncios das enchentes e problematizar as possíveis implicações das chuvas requer a construção um conjunto de saberes e fazeres ambientais.
Nas comunidades tradicionais amazônicas são desenvolvidas formas de linguagens cujas semânticas pautam-se na leitura e compreensão de elementos espaciais que funcionam feito uma “cartografia da leitura ambiental”. A produção de linguagem do meio físico pressupõe o entendimento da dinâmica do interior das florestas, dos rios e igarapés, do mato, da chuva, do sol, do inverno, da garoa, entre outros. A linguagem adquirida é fruto da aprendizagem do meio, das percepções e deslocamentos feitos cotidianamente, do tato e contato com os elementos naturais. Os saberes sobre a sociobiodiversidade que revela a PedagogiaTerritorial ou cartografia dos indícios socioambientais ribeirinhos são descritos por Diniz (2012, p. 9):
Conhecedores de uma série de saberes ambientais que envolvem o reconhecimento das transformações da natureza, os ciclos da lua, as épocas chuvosas, os espaços para o cultivo, as formas de acasalamento dos animais, a identificação das plantas através da observação, cheiro e tato e de um conjunto de biodiversidade, os ribeirinhos tem na natureza um fundamento para a construção de suas vidas, cultura e do sustento sustentável
Plantar, caçar, coletar, colher, pescar, queimar, representam práticas sociais, também fundadas, na observação dos ciclos da lua, dos tipos de solos, do reconhecimento de locais precisos da concentração de animais. Toda relação com a natureza é pautada no entendimento de seu funcionamento. Assim, para Diniz (2011, p. 08):
Esses processos expressam cartografias sociais, pois são mapeados um conjunto de saberes relacionados aos espaços físicos e ao exercício do poder territorial do uso dos rios, igarapés, lagos, cemitérios, uso da terra..., e reforçam a identidade territorial
As caminhadas no interior das florestas e deslocamentos prolongados nos rios são práticas recorrentes das populações amazônicas que vivem em contato direto com a natureza. O ato de caminhar e a respectiva apreensão do meio físico para Certeau (2011) apresentam um caráter enunciativo da linguagem:
...é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato de palavra é uma realização sonora da língua (CERTEAU, 2011, p. 164).
Uma característica da semântica espacial é a construção de códigos, regras, normas e limites que regulam certos deslocamentos no meio físico. Na Comunidade Igarapé Grande foram identificados vários exemplos dessa semântica espacial, entre eles, destaca-se a proibição do banho de igarapé ao meio dia (12:00h) devido a presença da mãe-d’água que enfeitiçaria os que se atrevessem a não seguir tal costume, a caminhada na mata envolve a destreza e perspicácia de execução de processos heterogêneos, conexos e estruturados no reconhecimento de indícios inscritos ao longo dos percursos, saber identificar os trechos onde se deve seguir, quais locais pisar, olhar as direções, identificar possíveis ameaças de animais, mover-se com agilidade desviando de espinhos, matos indesejados causadores de coceiras, arranhões, seguir pistas que levem a locais pretendidos, criar e ouvir sons e ruídos de animais além de permitir a vivência na mata promove a fertilização da imaginação através da construção de mitos e estórias.
Portanto, as populações amazônicas criam e recriam saberes ambientais cujas metodologias de aprendizagem, a pedagogia do ambiente, se baseia na transmissão de conhecimentos através de oralidades e ações, de fazeres que envolvem o meio físico. Cheirar, sentir, provar e observar a natureza são práticas milenares que faze parte do cotidiano dos povos amazônidas. Estas práticas não menosprezam ou estereotipam as populações locais, apenas apontam as bases da cartografia dos indícios ambientais.
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[1] Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Pará (2012) – Professor da Secretaria Estadual de Educação e Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Educação e Meio Ambiente na Amazônia (GRUPEMA-UEPA) - franciscoprofessorgeo@hotmail.com
[2] Habitar o território da pesquisa significa inserir-se no mundo e cultura dos sujeitos pesquisados .
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