FRANCISCO PERPETUO SANTOS DINIZ
FUNDAMENTOS PARA CONSTRUÇÃO DE
TCC
E PROJETO DE
MESTRADO
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
O MODELO DE CONHECIMENTO DOMINANTE
A Ciência Define as Normas da Construção do Conhecimento
A Crise do Paradigma da Ciência Dominante e a Cartografia de Saberes.
A CONSTRUÇÃO DE OBJETO DE PESQUISA
Como Construir a Temática de uma Pesquisa
COMO DEFINIR UM PROBLEMA DE PESQUISA
Por onde Começar?
O MÉTODO DE ANÁLISE TEÓRICA
Qual Método Utilizar?
Os Tipos de Pesquisas: Qualitativa e Quantitativa
METODOLOGIAS DE PESQUISAS
Selecionando a Metodologia
A Pesquisa Etnográfica
O Trabalho do Etnógrafo
Estudo de Caso
Pesquisa Bibliográfica
A Pesquisa Documental
A Pesquisa-ação
A Pesquisa Participante
PRODUÇÃO E ANÁLISE DE DADOS
Técnicas de Produção e Análise de Dados na Pesquisa Experimental ou Quantitativa.
Técnicas de Produção e Análise de Dados na Pesquisa Qualitativa.
Algumas Técnicas de Pesquisa: Entrevistas, Formulários, Entrevistas não-Diretivas, Histórias de Vida, A Fotografia
CARTOGRAFIA E TRABALHO DE CAMPO
O Ofício do Cartógrafo
AS CITAÇÕES
Citar para que?
O CURRÍCULO
Como Construir um Currículo Acadêmico
PROJETO DE MESTRADO
Fundamentos para passar no Mestrado
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
INTRODUÇÃO
A escolha pelo título deste livro “Fundamentos para Construção de Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCC’s) e Projetos de Mestrado” tem haver com a identificação e levantamento de insatisfações de pessoas relativas à dificuldade de elaboração de Projetos de Pesquisas na acadêmica e do desconhecimento da temática estão discutida.
Esta obra também foi criada a partir da experiência que tive na seleção no Programa de \Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará (2010) onde fui aprovado no Mestrado, das indagações sistematizadas em diálogos com professores de ensino médio e fundamental que apresentavam angústias, mêdo, insegurança e dúvidas sobre processos de seleção de mestrado e da observância de graduandos que relatavam o desconhecimento na construção de projetos de conclusão de curso.
Portanto, esta obra é de grande valia aos candidatos que irão participar de seleções de Mestrado, de universitários que estão passando pelo processo de construção de TCC’s e de todos aqueles que estão iniciando ou aprofundando o fazer pesquisa.
O MODELO DE CONHECIMENTO DOMINANTE
A Ciência Define as Normas da Construção do Conhecimento
É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da Botânica à Biologia, a Anatomia, mas também a Gnoseologia, a Teologia, a Ontologia, toda Filosofia...(DELEUZE e GUATTARI, 1995, p. 28-29/Mil Platôs/Vol.1).
O modelo de ciência dominante[1] é ocidental e tem suas bases centradas no racionalismo aprimorado do século XVI. O conhecimento científico nega outras formas de conhecimento (metafísico, religioso, artístico, etc.), não considera a subjetividade e o senso comum.
De acordo com a forma de pensar da ciência dominante, a natureza é separada do homem e é vista como uma grande engrenagem regida por leis invariáveis que precisa ser domesticada, dominada. Para Deleuze e Guattari (1997. Vol.5), a ciência hegemônica é régia, constitui-se num decalque, um modelo árvore-raiz que apresenta leis imutáveis e busca padronizar as realidades e fenômenos:
O ideal de reprodução, dedução ou indução faz parte da ciência régia em todas as épocas, em todos os lugares, e trata as diferenças de tempo e lugar como outras tantas variáveis das quais a lei extrai precisamente a forma constante: basta um espaço gravitacional e estriado para que os mesmos fenômenos se reproduzam, se as mesmas condições são dadas, ou se a mesma relação constante se estabelece entre as condições diversas e os fenômenos variáveis. Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo, exterior ao produzido: ver fluir, estando na margem. (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p. 40).
A forma de produzir conhecimento segundo o modelo de ciência dominante tem haver com a constante observação e descrição do fenômeno analisado. A partir desta premissa, os fenômenos são estudados mediados pela mensuração, pelo cálculo e pela lógica matemática, todos voltados para quantificação e modelização. Dessa forma, o objeto investigado é compartimentado, retalhado em diversas partes para que se encontre a constância de determinadas variáveis.
A forma de produzir conhecimento da ciência hegemônica é marcada pela construção de leis matemáticas e modelos a serem reproduzidos de forma universal. Este contexto é discutido por Boaventura Santos que afirma o seguinte:
O rigor científico afere-se pelo rigor das medições. As qualidades intrínsecas do objeto são, por assim dizer, desqualificadas e em seu lugar passam a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que não é quantificável é cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o método científico assenta na redução da complexidade. O mundo é complicado e a mente humana não o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou (BOAVENTURA, 2009, p. 63).
A observação constante dos fenômenos resultaria na edificação de leis, assim como acontece com as leis da natureza que são reproduzidas espontaneamente independente de situações. O objetivo da investigação científica estaria focado no entendimento do movimento de leis e fenômenos ignorando os sentidos, substâncias, conteúdos, percepções e conjecturações que os sujeitos teriam de coisas, objetos e fenômenos. Assim, as representações, subjetividades e percepções dos sujeitos seriam ignoradas.
A análise dos fatos sociais no modelo hegemônico de ciência seria conduzida a partir de orientações advindas das ciências ditas como exatas e naturais. Estas ciências impuseram às Ciências Sociais parte de suas formações, especialmente as fundadas no Positivismo[2] que definiu padrões de investigação estruturados em modelos físicos e matemáticos. Foi imposto que as leis que regem a natureza seriam as mesmas que norteariam a existência da sociedade. Por essa perspectiva, a sociedade passaria a ser estudada de forma neutra, objetiva, sem juízos de valor, sem pré-noções ou conceitos, sem paixões, ideologias ou crenças.
Essa forma de se conceber a ciência influenciou todos os ramos de saberes acadêmicos. Nenhuma área de conhecimento se tornou imune às teorias positivistas que relegaram o senso comum, a filosofia, a arte, a religião e outras formas de compreensão da realidade à condição de marginalidade.
A perspectiva da produção da ciência fundada em dados quantitativos, voltados para atender o princípio da neutralidade científica e direcionados à separação do sujeito que realiza a pesquisa e do objeto pesquisado ainda marca parte considerável das ciências sociais.
Nesse contexto, a natureza é separada do homem e é vista como uma grande engrenagem regida por leis invariáveis pertencentes a uma complexa máquina que deve ser domesticada, dominada
Para Deleuze e Guattari (1997. Vol. 5), a ciência dominante está mais preocupada em definir conceitos e categorias, desterritorializando outras possibilidades do fazer científico:
O que é próprio da ciência régia, do seu poder teoremático ou axiomático, é subtrair todas as operações das condições da instituição para convertê-las em verdadeiros conceitos intrínsecos ou categorias. Por isso, nessa ciência, a desterritorialização implica uma reterritorialização no aparelho dos conceitos (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 42, vol. 05).
Assim, para Deleuze e Guattari (1995, v. 5), a ciência hegemônica é regia e apresenta leis imutáveis que buscam padronizar as realidades e fenômenos.
É importante ressaltar que apesar da predominância de pesquisas de base positivista e quantitativa na forma de produzir ciência, novos caminhos têm sido traçados tanto a nível teórico como metodológico que vão de encontro à forma dominante de fazer pesquisa e construir conhecimento.
Contudo, Boaventura (2009) relativiza a armadura imposta pelo conhecimento científico:
Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor, não estão antes nem depois da explicação científica da natureza e da sociedade. São parte integrante dessa mesma exposição. A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade. Nada há de científico na razão que hoje nos leva a privilegiar uma forma de conhecimento baseada na previsão e controle das variáveis. (BOAVENTURA, 2009, p. 84).
Portanto, a ciência e suas regras não podem ser consideradas a única vertente para entender o mundo. Há fronteiras e fissuras nesta forma de pensar dominante e que abre espaço a cartografia e mistura de saberes.
A Crise do Paradigma da Ciência Dominante e a Cartografia de Saberes.
O modelo de ciência dominante nega outras formas de conhecimento, não considera a subjetividade, o senso comum, a aprendizagem, a construção e a socialização de conhecimentos feitos a partir de vivências individuais e coletivas. Contudo, Para Santos (2009) há um novo paradigma que só pode ser entendido a partir da especulação dos sinais da crise do paradigma dominante. Este paradigma é denominado como paradigma prudente para uma vida descente que envolve ciência, o paradigma prudente e, o social, o paradigma descente. Chama atenção, nesta crise, o reconhecimento da participação, da solidariedade e do caos, a revalorização do conhecimento emancipação; a reciprocidade entre sujeito e objeto; a superação da dicotomia ciências naturais e sociais.
Santos (2010) afirma que o pensamento moderno é pós-abissal e não derivativo, envolve uma ruptura radical com as formas ocidentais modernas de pensamento e ação. Usando uma epistemologia do Sul, confronta a monocultura da ciência moderna com uma ecologia de saberes[3]. A ecologia de saberes buscaria a diversidade epistemológica do mundo – o reconhecimento da existência de uma pluralidade de formas de conhecimento, da impossibilidade de uma epistemologia geral.
Acompanhando a crítica ao rigor do modelo de ciência dominante e a falta de integração sobre as diversas expressões de conhecimentos, Morin (2010) aborda a necessidade de valorizar a complexidade do conhecimento rumo à complexidade de saberes. Dessa forma, o pensamento complexo é tido como a aproximação, relação, misturas e integrações dos conhecimentos separados pelo próprio processo de desenvolvimento das ciências.
Dessa forma a integração de saberes estaria presente na consideração na diversidade da ciência e fazeres científicos, na ênfase ao entendimento do mundo e de ciência a partir do senso comum, da ciência dominante, dos conhecimentos filosóficos e religiosos.
A CONSTRUÇÃO DE OBJETO DE PESQUISA
Como Construir a Temática de uma Pesquisa?
O primeiro passo a ser dado na construção de uma pesquisa é a definição de uma temática. Este procedimento, a primeira vista, parece ser óbvio e elementar, porém, algumas ressalvas devem ser consideradas nesta etapa inicial:
1ª – A importância da Formação Acadêmica. Uma boa formação acadêmica auxilia na realização de qualquer pesquisa. Quando utilizamos o termo “boa” estamos nos referindo ao aprofundamento de leituras, realização de resumos de livros, periódicos, artigos, participação em grupos de pesquisa e extensão, em seminários internacionais, nacionais e locais, congressos, escrita de artigos, realização de estágios, de campo, entre outros. Afinal, um bom piloto se forma a partir da quantidade de horas de vôos e da constante formação continuada, um bom médico se edifica a partir do exercício da medicina, do estudo constante e da dedicação a profissão e um bom pesquisador se forma a partir da realização de pesquisas, da leitura, da escrita e da entrega total ao fazer pesquisa. Não se formam bons pesquisadores sem o devido envolvimento sistemático, ao longo da carreira, com a pesquisa. Assim, é a partir da dedicação aos estudos que as temáticas podem ser suscitadas, aprimoradas, levantadas e estudadas. Como criar temáticas sem relação com nossas formações?
2ª – A temática deve estar relacionada à vida curricular do pesquisador. Imaginemos um aluno do curso de medicina, que realizou seu Trabalho de Conclusão de Curso na Área de Obstetrícia e que devido à ânsia em ser aprovado num programa de mestrado, construa um trabalho na área de meio ambiente, especificamente no aproveitamento de solo por populações camponesas. Verificamos que a proposta criada para a seleção de mestrado se distancia da formação curricular do candidato, o que resultará numa série de dificuldades associadas à demanda de realização de leituras específicas e o desconhecimento do que se pretende pesquisar. Apesar da interdisciplinaridade de conhecimentos, não devemos nos precipitar e realizar “coisas” que não tenhamos identidade e sucesso.
3ª – Definir o que pesquisar. A temática selecionada, apesar de ser resultado de nosso envolvimento, conhecimento, aproximação, identificação, etc, com nossa vida acadêmica e social, temos que ter o cuidado para não selecionarmos temáticas que se mostrem abstratas, abrangentes demais, ou seja, precisamos especificar, detalhar, definir, “limitar” ou recortar o objeto de investigação. Não bastar apontar o meio ambiente como objeto de investigação, mas precisamos apontar um assunto específico do meio ambiente para ser objeto de investigação. Desta forma, a temática deve ser específica para que se construa um objeto de pesquisa. Elas devem apontar de forma precisa o que queremos, nossos anseios, a assência do que se vai pesquisar. Cuidado com temáticas abrangentes e que dificultem a construção do objeto, objetivos e problemáticas de estudo.
4ª – Pesquisar o que considero importante? Então, que tal elaborar um projeto de pesquisa a partir de temas relevantes de nossa formação? Não! Caríssimos, temos que nos enquadrar nas linhas de pesquisas do Programa de Mestrado que participaremos, na linha de pesquisa que o futuro Professor-orientador investiga na academia. Essa é a verdade! Parece incoerência ao que tudo descrevemos anteriormente, não é?
Urge a necessidade de criarmos relações. Por exemplo, se um candidato construiu um currículo na área da modelagem da matemática (de fatoração), será que não terá capacidade para elaborar um projeto enfatizando a modelagem da matemática (outros conteúdos) na Educação de Jovens e Adultos? Outro projeto na etnomatemática em comunidades ribeirinhas? Seria ingênuo imaginar que haveria programas de pós-graduação que contemplassem os infindáveis currículos acadêmicos de graduandos e especialistas. Portanto, no término ou durante as graduações devemos ampliar nossos campos de interesses, conhecimentos e estar sempre atento as demandas das pós-graduações em nível de mestrado e doutorado.
Onde fica a relevância social? O ideal seria a construção de pesquisas que atendessem: sociedade e mercado, pois as demandas sociais são muitas, mas existem programas de Mestrado e Doutorado focados exclusivamente nos interesses de mercado, nos objetivos econômicos. Portanto, é preciso estar atento ao programa de pós-graduação que vamos escolher para não cometermos garfes.
COMO DEFINIR UM PROBLEMA DE PESQUISA
Por onde Começar?
Pois bem, após a definição de uma temática de pesquisa precisamos determinar a problemática a ser investigada. Lembre-se, não existe pesquisa sem problemática!
Afinal o que é um problema de pesquisa? A resposta desta pergunta aparentemente é fácil de ser respondida. Contudo, ao contrário do que se imagina, ela dever ser sempre objeto de profundas reflexões.
É comum aos iniciantes de graduações dúvidas sob a formação de um projeto de pesquisa. Gradativamente as dúvidas vão sendo sanadas com a construção de trabalho de conclusão de curso (TCC), do envolvimento em grupos de pesquisa ou da construção de artigos científicos.
Enumero a seguir alguns percalços, angústias e dificuldades enfrentadas no processo de formulação de perguntas de pesquisas:
1) O problema de uma pesquisa não surge da realização de perguntas simples ou complexas sobre aquilo que se quer pesquisar. Recordo de perguntas que realizava no processo de definição da problemática do projeto de minha dissertação sobre sustentabilidade e populações ribeirinhas em Ananindeua-Pa. Perguntava: que ações eram desenvolvidas entre os ribeirinhos e que se constituíam em formas singulares de educação ambiental? Esta pergunta era a todo tempo multiplicada desdobrando-se em outras perguntas mais simples e outras complexas, sempre indo à busca daquilo que não sabia.
Identifiquei que as práticas de educação ambiental desenvolvidas pelos ribeirinhos de Ananindeua envolviam múltiplos fazeres do cotidiano. Preservar a mata, caçar, limpar córregos e igarapés, plantar vegetais ameaçados de extinção, coletar sementes, enfim, entendi que educação ambiental em ambientes ribeirinhos é ampla, diversa e polissêmica e que o conceito de educação ambiental na ilha João Pilatos fugia ao conceito que estava acostumado a trabalhar, quase sempre baseado em abstrações teóricas nas relações entre sociedade e natureza.
Era preciso definir que tipo de educação ambiental queria pesquisar e em qual contexto ou lócus das ilhas deveria realizar a pesquisa. Tinha a pretensão, ao entrar no Mestrado, de investigar as práticas de educação ambiental desenvolvidas pelos ribeirinhos em todas as ilhas de Ananindeua. Tarefa quase impossível, pois Ananindeua possui 9 ilhas e dezenas de comunidades, fato que demandaria anos de dedicação em decorrência da proposta de estudo fundada na cartografia que perpassava pela vivência em campo similar a etnografia e, teria no mestrado, apenas 2 anos.
O que foi significativo neste contexto de reflexão foi o entendimento de que o que possibilita a construção do problema de pesquisa é a definição precisa daquilo que se quer estudar o que requer um profundo exercício de reflexão. Caso contrário, gera contradição, erro e incerteza.
2) O problema de uma pesquisa não surge a partir da busca incessante daquilo que não se sabe, pois é consenso entre nós a afirmação de que em determinados assuntos sabemos muito e de outros não sabemos quase nada. Concluí que o não saber, não determinava um problema de pesquisa. Acreditava que deveria saber sobre o funcionamento das práticas de educação ambiental de forma abrangente e que minha pesquisa, apesar de basear-se em critérios qualitativos, estava preocupada com a quantidade de informações. Que pretensão! Queria ultrapassar o não saber e chegar ao saber, como se estivesse saindo das trevas para a luz iluminista ou atravessando o caminho que se inicia do senso comum à razão e racionalismo instrumentais da ciência moderna.
É sempre um desafio apresentar as dificuldades de aprendizagens, de amadurecimento acadêmico e de dúvidas que persistem após a conclusão de um curso de graduação. Identifiquei que diversos profissionais interessados em ingressar em mestrados rotineiramente afirmavam que não sabiam construir projetos de pesquisa. Esta situação seria resultante da ineficiência de professores de metodologia científica? De currículos enrijecidos e especializados em assuntos descontextualizados com o contexto do fazer pesquisa? De práticas acadêmicas focadas em resumos, leituras e seminários, desconsiderando um ato “primário”, artesão e basilar da academia que é realizar pesquisa científica. Estaríamos formando pesquisadores habilitados ao fazer pesquisa?
Quase nunca apresentamos nossos desafios e inquietações no fazer pesquisa, em geral, não consideramos as longas horas dedicadas às leituras para amenizarmos nossa falta de conhecimento de determinados assuntos; da escrita, avaliação de dados e das dificuldades enfrentadas no processo de construção de trabalhos de conclusão de cursos, dissertações e teses.
Pois bem, voltemos às dificuldades perpassadas na definição do problema desta pesquisa:
3) O problema não é a expressão daquilo que é relevante, pois comer, beber e dormir são coisas relevantes e podem ou não serem considerados como problemas. Imaginava que o problema de qualquer pesquisa, pela própria denominação da palavra “problema”, estaria relacionado às dificuldades que surgiriam, às situações desconfortáveis que deveriam ser superadas, às dúvidas que seriam apresentadas. Que desilusão! Dependendo da pesquisa, o problema pode ser de fácil identificação e em outro contexto pode ser de difícil determinação. Tal exercício é parte integrante de qualquer proposta de investigação científica.
4) Que a pesquisa precisa ter relevância social. O maior título que o pesquisador recebe é contribuir com a problematização da realidade social onde os sujeitos da pesquisa vivem e cujos resultados possam ser aproveitados pela sociedade em geral.
5) Que os sujeitos investigados não se constituem “objeto” da pesquisa, acabam participando e influenciando o pesquisador. Este fato ratifica a idéia de que não existe neutralidade científica. Como ficar neutro convivendo cotidianamente com pessoas, participando de eventos sociais coletivos, se alimentando em locais momentaneamente especiais, vivendo situações singulares, aprendendo formas específicas de organização social e relações com a natureza, compartilhar experiências, angústias e esperanças?
6) Que o pesquisador deve identificar o que é fundamental para a realização da pesquisa, aquilo que é importante em conhecer, em entender a essência da “coisa” a ser pesquisada, do objeto em si e satisfazer as curiosidades e interrogações enquanto pesquisador. Saviani (1982) afirma que quando o homem sente a necessidade de indagar, questionar e descobrir algo, está construindo seu problema de pesquisa e que problematizar seria necessidade de responder e atender a questionamentos inerentes à existência humana. Apenas acrescento às idéias de Saviani, que a necessidade envolve visões individuais e coletivas, divergentes ou não, mas por outro lado é o que dá sentido ao conhecer humano e é o que instiga a formulação do problema de pesquisa.
Enfim, vale ressaltar a diferença no processo de construção do problema nas pesquisas qualitativas e quantitativas. Assim, na pesquisa experimental ou quantitativa o problema da pesquisa parte de conjecturações de modelos teóricos que buscam ser comprovados através da validação de hipóteses pré-estabelecidas. Já a pesquisa qualitativa não determina normas rígidas ou padrões na definição do problema a ser investigado.
O problema de uma pesquisa qualitativa é formado a partir da vivência constante com os sujeitos em estudo, das revisões bibliográficas, da assimilação de opiniões com os envolvidos com a pesquisa, do constante repensar daquilo que se deseja estudar. O problema não pode ser concebido como a superação de uma etapa da rígida da pesquisa:
A identificação do problema e sua delimitação pressupõe uma imersão do pesquisador na vida e no contexto, no passado e nas circusntâncias presentes que condicionam o problema.... A delimitação é feita, pois, em campo onde a questão inicial é explicitada, revista e reorientada a partir do contexto e das informações das pessoas ou grupos envolvidos na pesquisa (CIZZOTTI, 1981, P. 81)
Verificamos que:
Para o entendimento do problema e do processo de construção de uma pesquisa qualitativa é necessário a participação na cultura dos sujeitos, na vivência no espaço geográfico onde os sujeitos manifestam suas formas de pensar e entender o mundo circundante (CHIZZOTTI, 1991, pág. 82).
O MÉTODO DE ANÁLISE TEÓRICA
Qual Método Utilizar?
É preciso entender que método de pesquisa tem haver com o aporte teórico necessário à subsidiar a pesquisa. Não há pesquisa sem método. Uma pesquisa tem que estar fundamentada em um dos métodos enumerados a seguir: Materialismo, Fenomenologia, Estruturalismo, Funcionalismo, Etnografia, Positivismo, etc.
Após a definição do método de análise teórica da pesquisa será definido, conseqüentemente, o tipo de pesquisa: qualitativa ou quantitativa.
Os Tipos de Pesquisas: Qualitativa e Quantitativa
Zaia Brandão (2002) critica o modismo verificado no uso acentuado de pesquisas de caráter qualitativo nas áreas das ciências sociais e humanas especialmente as relacionadas à educação. Dessa forma haveria uma aversão generalizada a alguns pressupostos da pesquisa quantitativa, similar ao que o Positivismo impôs aos procedimentos considerados subjetivos e qualitativos inscritos nas formas de pesquisa das ciências sociais. Assim “a questão está em ser capaz de selecionar os instrumentos de pesquisa em consonância com os problemas que se deseja investigar” (ZAIA, 2002, p. 27).
A pesquisa qualitativa, em geral, se opõe aos valores e pressupostos teóricos metodológicos de pesquisa fundada no Positivismo. A pesquisa qualitativa não considera que existe apenas um método de investigação advindo das ciências matemáticas e naturais pautados na quantificação, mensuração e criação de leis gerais para a explicação dos fenômenos. Estes questionamentos se fundamentam nas argumentações que enfatizam que os fenômenos humanos e sociais não podem ser reproduzidos em laboratórios, não possuem a mesma dinâmica dos fenômenos químicos, físicos e matemáticos e que em cada contexto social os atos humanos apresentam especificidades que os diferenciam.
Na pesquisa qualitativa busca-se o contato direto do investigador com o sujeito, fenômeno ou situação em estudo. De modo geral, o pesquisador habita locais onde os sujeitos constroem seus cotidianos socioeconômicos e afetivos culturais, fatos que implicam em vivências duradouras, acompanhamentos de processos subjetivos e observações de situações singulares no trabalho de campo. Neste sentido, rompe-se com a simples separação imposta pelo Positivismo referente ao sujeito que investida e o objeto que é investigado, pois este processo é envolto por aprendizagens, trocas de experiências, pontos de vistas que são expressões humanas, mas que são embebidas pela cientificidade, ética e profissionalismo no ato de fazer pesquisa. Assim, segundo Chizzotti:
A pesquisa qualitativa privilegia algumas técnicas que coadjuvam a descoberta de fenômenos latentes, tais como a observação participante, a história ou relatos de vida, análise de conteúdo, entrevista não diretiva etc... A pesquisa qualitativa pressupõe que a utilização dessas técnicas não deve constituir um modelo único, exclusivo e estandartizado. A pesquisa é uma criação que mobiliza a acuidade inventiva do pesquisador, sua habilidade artesanal e sua perspicácia para elaborar a metodologia adequada ao campo de pesquisa, aos problemas que ele enfrenta com as pessoas que participam da investigação. O pesquisador deverá, porém, expor e validar os meios e as técnicas adotadas, demonstrando a cientificidade dos dados colhidos e dos conhecimentos produzidos (CHIZZOTTI, 1991, p. 85)
O objeto quando investigado na pesquisa qualitativa não é separado do sujeito, havendo relações de interdependência entre ambos. Fato contrário, acontece na pesquisa experimental onde o sujeito independe do objeto, sendo este último, externo ao observado. Apesar destes princípios as relações criadas não seriam neutras, objetivas, sem interação entre quem investiga e quem é observado, pois a observação é produto da subjetividade e carga de valores.
Na pesquisa experimental ou quantitativa as percepções, impressões, sensações humanas que permitem a apreensão de um objeto dado, quantificável, medido, fragmentado, testado, não são consideradas. Portanto, o sujeito seria sujeito-consciência que explica as coisas através de leis dadas ou a serem formuladas. Por outro lado, na pesquisa qualitativa, o sujeito-observador interpreta o objeto, a partir de singularidades e subjetividades.
METODOLOGIAS DE PESQUISAS
Selecionando a Metodologia
A descrição da metodologia é uma etapa fundamental no desenvolvimento de qualquer pesquisa. É na metodologia que são descritos os procedimentos de realização da pesquisa, que etapas seguir e como responder ao problema levantado e da direcionamento para atingir os objetivos propostos pela pesquisa.
A Pesquisa Etnográfica
Vejamos algumas metodologias de pesquisas a partir da leitura e análise de alguns conceitos:
Para Geertz (1989) a etnografia tem haver com:
...selecionar informantes, transcrever textos, levantar genalogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos determinados, que definem o empreendimento. O que define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma “descrição densa” (GEERTZ, 1989, p. 15).
Assim há três características da descrição etnográfica: ela é interpretativa; o que ela interpreta é o fluxo do discurso social e a interpretação envolvida consiste em tentar salvar o “dito” num tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo em formas pesquisáveis .... Há ainda, em aditamento, uma quarta característica de tal descrição, pelo menos como eu a pratico: ela é microscópica (GEERTZ, 1989, p. 31)
O Trabalho do Etnógrafo
O ponto a enfocar agora é somente que a etnografia é uma descrição densa. O que o etnógrafo enfrenta, de fato – a não ser quando (como deve fazer, naturalmente) – está seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados – é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas uma às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro preencher e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade de seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de propriedade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamentos modelados (GEERTZ, 1989, p. 20).
Vejamos o que diz Severino:
A pesquisa etnográfica visa compreender, na sua continuidade, os processos do dia-a-dia em suas diversas modalidades. Trata-se de um mergulho no microssocial, olhado com uma lente de aumento. Aplica métodos e técnicas compatíveis com a abordagem qualitativa. Utiliza-se do método etnográfico, descritivo por excelência (SEVERINO, 2007, p. 119)
Tanto Geertz quanto Severino relacionaram a pesquisa etnográfica a prática de campo. Portanto, a vivência com os sujeitos da pesquisa, por longos períodos são fatos marcantes da pesquisa etnográfica.
A etnografia prima pelo uso do caderno ou registro de campo. Os registros devem ser sistemáticos, buscando sempre, a fidelidade dos acontecimentos.
Este tipo de pesquisa é qualitativa, descritiva e considera a significância, da falas, rituais, expressões, processos e impressões do pesquisador e pesquisado. Os fenômenos sociais são estudados a partir de suas singularidades e estruturas de comportamentos que marcam e conduzem as vivências entre os agrupamentos humanos.
Assim, elencamos abaixo, características do trabalho de campo da etnografia:
a) Permanência, por longos períodos em campo, no intuito de adentrar e entender o universos sociocultural dos sujeitos em estudo;
b) Descrição de detalhes dos fenômenos. Podemos considerar a etnografia como uma descrição longa e pormenorizada, porém, dá-se destaque ao foco de determinados processos.
c) Ênfase aos microprocessos sociais tidos como relevantes no entendimento de certos fenômenos. Quase não é dado destaque as implicações macroeconômicas, políticas e ideológica mundiais em grupos locais. A etnografia prima pelo estudo de relações de parentescos, rituais de passagens, edificação de identidades locais, etc.
Estudo de Caso
Pesquisa que se concentra no estudo de um caso particular, considerado representativo de um conjunto de casos análogos, por ele significativamente representativo. A coleta dos dados e sua análise se dão da mesma forma que nas pesquisas de campo.
SEVERINO, 2007, p. 1201
Pesquisa Bibliográfica
A pesquisa bibliográfica é caracterizada pelas investigações em fontes anteriormente já organizadas e sistematizadas, em livros, jornais, revistas, documentos. Neste tipo de pesquisa, investigam-se categoriais, conceitos, afirmativas, entre outros, já discutidos por diversos autores. Por exemplo, quando um pesquisador está discutindo em sua pesquisa o conceito de educação popular, ele recorre a um conjunto de livros, impressos, etc para fundamentar o conceito de educação popular que lhe é mais conveniente e que atende aos seus interesses. Na verdade, o que o pesquisador faz é consultar vários conceitos de educação popular para fundamentar o que vai nortear seu trabalho. Para Severino (2007, p. 122) a pesquisa bibliográfica “utiliza-se de dados ou de categorias já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registradas”.
A Pesquisa Documental:
É equivocada a idéia de que o documento é representado apenas por textos oficiais e materiais impressos. O documento pode ser representado por impressos, áudios e vídeos, fotos, imagens, ilustrações, jornais, etc. que ainda não foram analisados pelos pesquisadores. Os documentos representam materiais em “estado bruto” para serem polidos pelo pesquisador.
A Pesquisa-ação
A pesquisa ação, em geral, vem sendo utilizada por pesquisadores envolvidos com temáticas sociais de grupos considerados marginalizados ou que estão lutando pela garantia, reconhecimento e legitimidade de seus direitos, objetivando transformar a realidade a partir de luta política. Contudo, a pesquisa-ação não deve ficar limitada a execução de atividades emancipatórias. Para Thiollent (2007) a pesquisa-ação pode ser entendida:
Entre as definições possíveis, daremos a seguinte: a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo ( THIOLLENT, 2007, p. 16).
A pesquisa-ação é bastante ampla e tem haver com variados objetivos de diversos grupos e segmentos sociais. Portanto, sua metodologia vai depender das metas, pretensões e finalidades de grupos sociais distintos. Porém, o que marca a pesquisa-ação é a participação, engajamento, envolvimento para que se intervenha na realidade buscando mudar sua natureza ou função.
A pesquisa participante é diferente da pesquisa-ação. A primeira tem haver com a convivência do pesquisador com os sujeitos que estão sob investigação. Apesar do pesquisador, na pesquisa participante, interagir com grupos de pessoas, observar situações, conviver em contextos sociais cotidianamente desenvolvidos em períodos prolongados com ou sem sistematicidade, desenvolver processos comunicativos com os sujeitos da pesquisa, compreender as necessidades, reivindicações, demandas, entre outras (os), o “participante-pesquisador” não foca suas metas na transformação da realidade. Porém, quando o objetivo do pesquisador é transformar a realidade, passa-se da pesquisa participante para a pesquisa ação.
A realização da pesquisa-ação pode ser planejada para ser executada previamente, antes da realização intensiva dos trabalhos de campo. Contudo, a pesquisa participante pode ser transformada em pesquisa-ação, pois o trabalho de campo pode apontar para a necessidade de revisão ou reformulação da metodologia da pesquisa.
A pesquisa-ação e a participante tem haver com trocas de experiências e apreensão do mundo físico, político, ideológico e cultural dos investigados, mas a pesquisa participante não prima pela intervenção e engajamento político para modificar a realidade, fatos que são marcantes da pesquisa-ação.
Thiollente (2007) demonstra preocupação com a confusão que existe entre pesquisa-ação e pesquisa participante. Para este autor:
Para que não haja ambiguidade, uma pesquisa pode ser qualificada de pesquisa-ação quando houver realmente uma ação por parte das pessoas ou grupos implicados no problema sob observação. Além disso, o que quer dizer uma ação problemática merecendo investigação para ser elaborada e conduzida (THIOLLENTE, 2007, p. 18).
Na pesquisa-ação o pesquisador ou grupo de pesquisadores objetivam resolver problemas práticos pertinentes a existência dos sujeitos que estão sob investigação. O problema da pesquisa é constantemente avaliado, observado, modificado, ou seja, a pesquisa deve ser finalizada a partir da resolução das metas anteriormente traçadas para o trabalho de campo.
Destaca-se que a pesquisa-ação que é voltada para resolução de problemas através de ações no interior de grupos pesquisados, também pode promover a reflexão de problemas, que apesar de não encontrarem soluções imediatas ou concretas, à exemplo da pobreza, desmatamento na Amazônia, migrações, etc, pode gerar reflexão, conscientização e “problematizações” de questões que impulsionem o pensamento crítico e tomada de novas atitudes frente ao contexto vigente. A pesquisa-ação permite, ainda, a geração de conhecimentos a serem utilizados em avaliações, comparações, planejamentos, discussões sob temáticas relevantes para grupos de pessoas e para toda a sociedade.
A Pesquisa Participante
A observação participante requer a inserção do pesquisador no ambiente socionatural dos sujeitos a serem investigados, para que se retirem informações, afirmativas, posicionamentos e percepções emanadas diretamente dos que estão sendo observados. A observação direta ou participante é obtida por meio do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado, para recolher as ações dos atores em seu contexto natural, a partir de sua perspectiva e seus pontos de vista (CHIZZOTTI, 1991, p. 90). Para Severino (2007, p. 120):
É aquela em que o pesquisador, para realizar a observação dos fenômenos, compartilha a vivência dos sujeitos pesquisados, participando, de forma sistemática e permanente, ao longo do tempo da pesquisa... Passa a interagir com eles em todas as situações, acompanhando todas as ações praticadas pelos sujeitos. Observando as manifestações dos sujeitos e as situações vividas, vai registrando descritivamente todos os elementos observados bem como as análises e considerações que fizer ao longo dessa participação (SEVERINO, 2007, p. 120).
A observação participante, não é a etonografia, pois o pesquisador não habita longos períodos (cotidianos) com os pesquisados, não interpreta situações a partir de suas densas descrições. Na pesquisa participante, a explicação de fenômenos é feita, em primeira ordem, pelos próprios sujeitos da pesquisa e o pesquisador, apesar de indagá-las, conhecê-las, tentar entendê-las, apenas as registra, para posteriormente analisá-las e sistematizá-las. A observação direta pode visar uma descrição “fina” dos componentes de uma situação: os sujeitos em seus aspectos pessoais e particulares, o local e suas circunstancias (CHIZZOTTI, 1991, p. 90).
E mais,
A observação direta ou participante é obtida por meio do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado, para recolher as ações dos atores em seu contexto natural, a partir de sua perspectiva e seus pontos de vista (CHIZZOTTI, 1991, p. 90)
PRODUÇÃO E ANÁLISE DE DADOS
Técnicas de Produção e Análise de Dados na Pesquisa Experimental ou Quantitativa.
A seguir enumeraremos algumas técnicas comuns da pesquisa experimental:
A pesquisa dirigida tem haver com a construção de diálogos entre pesquisador e pesquisado, de forma que, a comunicação seja objetiva, no sentido de evitar divagações, fuga do tema e relatos inconsistentes comuns em determinadas situações em conversas, especialmente, quando entrevistado se sente “livre” ou à vontade para falar.
Por outro lado, na observação direta é um procedimento de pesquisa caracterizado pela observação de situações definidas anteriormente pelo pesquisador, no momento em que elas ocorrem. Neste procedimento, a sistemática ou repetição de eventos, num determinado período de tempo, resulta em categorias de análises.
Neste procedimento de observação, são destacadas relações entre variáveis, processos que influenciaram as relações. Utiliza-se das descrições de situações que se tornaram freqüentes para que seja permitida a elaboração de hipóteses. Vale ressaltar, a repetição, relação, confiabilidade e detalhamento de situações em que os fenômenos ocorrem.
Outra técnica, muito freqüente da pesquisa quantitativa ou experimental é o uso de questionários. Os questionários consistem num conjunto de questões previamente elaboradas e estruturadas de forma que quando aplicadas os entrevistados possam responder e atender, precisa e coerentemente, aos objetivos do pesquisador.
A análise de dados na pesquisa experimental requer, primeiramente, a quantificação, a classificação e análise. As análises podem ser quantitativas ou sistêmcias, históricas, etc.
Técnicas de Produção e Análise de Dados na Pesquisa Qualitativa
A pesquisa qualitativa, em geral, se opõe aos valores e pressupostos teóricos metodológicos de pesquisa fundada no Positivismo. A pesquisa qualitativa não considera que existe apenas um método de investigação advindo das ciências matemáticas e naturais pautados na quantificação, mensuração e criação de leis gerais para a explicação dos fenômenos. Estes questionamentos se fundamentam nas argumentações que enfatizam que os fenômenos humanos e sociais não podem ser reproduzidos em laboratórios, não possuem a mesma dinâmica dos fenômenos químicos, físicos e matemáticos e que em cada contexto social os atos humanos apresentam especificidades que os diferenciam.
O caráter qualitativo tem a ver com a relevância das informações fornecidas pelos sujeitos da pesquisa, sem a devida preocupação com a quantidade de informações coletadas e sem a ênfase da necessidade de abranger o maior número possível dos sujeitos pesquisados. Considera-se a significância das informações.
As informações, na pesquisa qualitativa, são consideradas “chaves”, significativas, singulares, não havendo preocupação com a quantidade de informações.
A análise de dados pode ser fundamentada na análise do discurso que para Severino:
...é uma técnica de tratamento e análise de informações constantes de um documento, sob forma de discursos pronunciados em diferentes linguagens: escritos, orais, imagens, gestos. Um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Trata-se de se compreender criticamente o sentido manifesto ou oculto das comunicações (SEVERINO, 2007, p. 121).
O tratamento de dados, na pesquisa qualitativa, também pode ser feito a partir da análise de conteúdo que consiste na consulta e análise à documentos e conteúdo bibliográfico, em geral.
Algumas Técnicas de Pesquisa
Entrevistas: Para Lakatos (2010, p. 278), a entrevista é uma conversação efetuada face a face, de maneira metódica, que pode proporcionar resultados satisfatórios e informações necessárias.
Formulários: Os formulários são procedimentos importantes na coleta de informações. Segundo Severino o questionário é um:
Conjunto de questões, sistematicamente articuladas, que se destinam a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisados, com vistas a conhecer a opinião dos mesmos sobre os assuntos em estudo. As questões devem ser pertinentes ao objeto e claramente formuladas, de modo a serem bem compreendidas pelos sujeitos. As questões devem ser objetivas, de modo a suscitar respostas igualmente objetivas, evitando provocar dúvidas, ambigüidades e respostas lacônicas (SEVERINO, 2007, P.125).
Entrevistas não-Diretivas: A pesquisa não-diretiva busca coletar informações a partir da disponibilidade que o entrevistado tem em se comunicar. O entrevistado tende a falar livremente sobre seus entendimentos, impressões, representações e experiências sobre determinado fato ou assunto que lhe é perguntado. Contudo, deve-se ter o cuidado, em fazer a gestão da comunicação, no sentido de evitar que o entrevistado discorra, por longos períodos, sobre assuntos que fogem a temática e objetivos pretendidos com a entrevista. Para Chizzotti (1991, p. 93):
A atitude disponível a comunicação, a confiança manifesta nas formas e escolhas de um diálogo descontraído devem deixar o informante inteiramente livre para exprimir-se, sem receios, falar sem constrangimentos sobre seus atos e atitudes, interpretando-os no contexto em que ocorrem. O entrevistador deve permanecer atento as comunicações verbais e atitudianais (gesto, olhar, etc.) sem qualificar os atos do informante, exortá-lo, aconselhá-lo ou discordar das suas interpretações, nem ferir questões íntimas, sem um preparo prévio (CHIZZOTTI, 1991, p. 93).
Histórias de Vida: A história de vida geralmente é formada a partir da realização de uma ou mais entrevistas prolongadas onde o entrevistador e entrevistado trocam energias, sentimentos. É importante salientar que o entrevistador interage, capta emoções, relatos... dos entrevistados. Atua em muitos casos como advogado, médico, artista, professor, juiz, comediante. Existem relatos que pesquisadores se tornaram padrinhos ou amigos dos entrevistados.
- O entrevistado atua como um confidente e o entrevistador atua como um observador e receptor momentâneo dos relatos. Permite que as pessoas falem livremente.
- As histórias de vida cruzadas são acumuladas pelos registros: o material de estudo caracterizado pela acumulação de histórias, fundido num só texto e sobre esse texto se desenvolve uma análise de conteúdo com o intuito de traçar trajetórias de determinados segmentos da população e definir tipologias biográficas.
- O entrevistado deve ser persistente, ter simpatia, intuição, percepção, saber ouvir e ter imaginação, respeito pelos outros flexibilidade, compreensão e acima de tudo muita disposição para ficar calado e escutar.
- No que se refere a técnica de tratamento de dados, utiliza-se a análise de discurso. Análise do Discurso. Na análise da enunciação: o discurso é tratado como um processo de elaboração onde se dá um sentido as palavras e opiniões. Evidencia-se o sentido lógico e metafórico das palavras. O discurso é tomado em sua totalidade.
- A intensidade da recolha biográfica e subdividida:
1- História de vida total: aspectos antropológicos dominantes - registrar todos os costumes, quotidianos, organizações culturais e como determinada cultura especifica se relaciona com a cultura dominante (bairro nordestino em São Paulo).
2-História de vida temática: pertence a uma mesma cultura; predomina o interesse em determinadas especificidades biográficas(ex: comunidade de maçônicos).
1- História de vida total: aspectos antropológicos dominantes - registrar todos os costumes, quotidianos, organizações culturais e como determinada cultura especifica se relaciona com a cultura dominante (bairro nordestino em São Paulo).
2-História de vida temática: pertence a uma mesma cultura; predomina o interesse em determinadas especificidades biográficas(ex: comunidade de maçônicos).
- Definição de “limite”: percepção de que os diversos entrevistados repetem de forma sistemática determinadas idéias. Neste caso o entrevistador deve perceber se as regularidades das falas atendem ou não as necessidades do objetivos determinados para estabelecer novas ações de pesquisa.
• Entre alguns problemas da história de vida, temos: 1- Idealização; 2- O entrevistado enfatiza determinados assuntos e ignora outros; 3- o narrador determina o que narrar(pessoas pouco expressivas ou muito comunicativas); 4- O entrevistador deve dá sentido as entrevistas(Deve evitar distorcer o que foi narrado/cuidado com a reinterpretação). Como verificar a veracidade do material recolhido? 5- O acúmulo de biografias relativizaria as imprecisões; 6- Complementar informações com parentes vizinhos, pessoas mais antigas, significativas.
• A história de vida é o estudo de um caso particular, prende-se normalmente, por ser ilustrativo dos fenômenos globais.
É importante, na técnica da história de vida, a disposição em ouvir. Para Fares (2010), é preciso:
Silêncio e atenção: para ouvir e poder refazer as questões ou acrescentar outras fora do roteiro: Daí que, antes da definição dessas questões específicas, é natural que as entrevistas pautem-se em um roteiro básico, que pode ser modificado diante dos narradores, pois são eles que constroem as teias para o diálogo avançar. Assim, quem conduz o trabalho deve conhecer a matéria e ser sensível ao tratamento da questão, para encontrar a questão necessária; reconduzir alguns temas; escolher a palavra compreensível naquele universo; conceber várias formas de expressar a pergunta; saber calar e ter disponibilidade de ouvir, de ouvir muito; não deixar a ansiedade saltar caminhos e chegar à pergunta final, sem ainda ter chegado ao fim da entrevista; deixar espaços abertos para uma próxima entrevista, ou um próximo pesquisador; para tantas outras aprendizagens e trocas (FARES, 2010, p. 24-25).
Destacamos ainda que história de vida pretende:
· Capta o que acontece nacintersecção do individual com o social;
· Permite que elementos do presente fundem-se a evocações passadas;
· Identifica como a pessoa percebe sua vida e como constrói imaginários;
· É a história oral que envolve depoimentos, relatos autobiografias, entrevistas, documentos...;
· É o narrador que determina o acontecer da entrevista;
· É o ponto de cruzamento da vida individual e do contexto social;
· Define a idéia de processo;
· Permite apreender a cultura do entrevistado;
· Revela em parte aquilo que é interior e exterior ao indivíduo;
· É a forma como as pessoas se expressam no mundo real;
· Demonstra as experiências subjetivas integradas aos contextos sociais.
A Fotografia: A técnica de registro fotográfico não deve ter a finalidade de ratificar ou “congelar” situações já vividas pelos sujeitos que serão pesquisados. Pelo contrário, tem a função de superar a mera ilustração, de demonstrar detalhadamente determinados processos educativos e convivência social e cultural dos sujeitos. Assim, para José de Souza Martins:
“Se a fotografia aparentemente congela um momento, sociologicamente, de fato, descongela esse momento ao remetê-lo para a dimensão da história, da cultura e das relações sociais” (MARTIS. pág. 65)
A fotografia tem haver com o registro de processos e dinâmicas sociais, não se preocupa com mera ilustração de objetos ou parte de uma ação. A fotografia instiga avaliação, reflexão e subjetividade.
CARTOGRAFIA E TRABALHO DE CAMPO
O Ofício do Cartógrafo
Uma das características marcantes da cartografia dos indícios socioambientais é a imersão em campo, pois, para um maior entendimento da dinâmica do cotidiano dos sujeitos é preciso estar presente constantemente com os sujeitos da pesquisa nos locais onde vivem. De acordo com Passos (2009), o trabalho do cartógrafo perpassa pela pesquisa de campo objetivando identificar e inserir-se em processos.
A não imersão do trabalho de campo faz do cartógrafo apenas um técnico. O trabalho de campo possibilita ao cartógrafo a observação dos sujeitos pesquisados. Os sujeitos da pesquisa são respectivamente o pesquisador e o pesquisado. Portanto, podemos aprender com as experiências culturais dos sujeitos, registrando formas educativas singulares de práticas simbólicas e reprodução material dos sujeitos observados. Considerar as relações dos sujeitos com o mundo e a historicidade dos seus processos sociais. Enfatizar os processos constituídos por teias de relações construídas a partir de movimentos permanentemente desenhados, pois, como seres sociais, desenvolvemos teias de relações.
O processo cartográfico não tem a preocupação com o simples registro de informações no trabalho de campo. Precisamos ir ao encontro do outro, ficar aberto ao diálogo, buscar a compreensão dos fatos a partir das constantes investidas a campo, da avaliação de nossas práticas de pesquisa.
O registro cartográfico é entendido como a leitura momentânea de fenômenos em constantes transformações. O registro cartográfico é a leitura da história que é construída unindo os processos anteriores e atuais (KASTRUP, 2009, p. 58). Aliás, o processo cartográfico não é um modelo a ser seguido, não apresenta etapas rígidas a serem vencidas. Para Deleuze e Guattari (1995), o mapa é um rizoma, passível de conexões, mutações, processos, territorializações e desterritorializações.
O registro cartográfico não é a mera anotação de fatos ou eventos, não tem início com a coleta de dados, não segue com a análise e discussão de dados; começa a ser feito quando selecionamos a temática e problematizamos o objeto de estudo. Produto de profundas reflexões.
Devemos relativizar nossas práticas de pesquisa, observar os fazeres dos sujeitos, escutar, sentir os cheiros, perceber as situações, busqcar compreender os movimentos, deslocamentos, construir novas relações de amizade. O registro escrito é considerado uma prática basilar do trabalho com a cartografia[4] .
O registro escrito é feito nas atividades de campo com o auxílio de um caderno de atividades. O diário de campo permite que dados sejam produzidos, reescritos sem formalidades e regras pré-fixadas e as observações, diálogos, impressões e intuições sejam também registrados.
A escrita deve ser sistemática, enfatizando a processualidade. Os registros escritos dão suporte às demais atividades de campo, auxiliam nas descrições entendidas como “chaves” para a pesquisa. Os momentos considerados “chaves” devem ser detalhadamente descritos, pois a cartografia prima por detalhes, por evidências, por sintomas, por pistas. “Para o cartógrafo o importante é a localização de pistas, de signos de processualidade” (KASTRUP, 2009, p. 25).
As anotações de campo deverão ser revisadas, respeitando é claro a sequência, os fatos e a fidelidade das situações ocorridas e resular em elaborações textuais. As elaborações textuais serão socializadas com os sujeitos da pesquisa sendo possível fazer correções, inserir informações consideradas pelos mesmos como relevantes e não abordadas.
Os textos construídos com as etapas da pesquisa dão vozes aos sujeitos. A pesquisa é a oportunidade dos sujeitos socializarem suas produções culturais, suas formas de vida, seus anseios e angústias. Na verdade, há uma relação de troca. Os sujeitos são utilizados para desenvolver a pesquisa e os mesmos se aproveitam das falas para “aparecerem” e evidenciarem suas estórias e vivências.
Assim, teremos a certeza de que não existe neutralidade científica, pois apesar de ter todo o cuidado com a objetividade da pesquisa nas entrelinhas,
encontraremos relatos que estão subtendidos e envolvidos numa série de sentimentos, visões de mundo, formações culturais e história de vida dos sujeitos a serem envolvidos. Neste sentido, os relatos de campo demonstram pensamentos pessoais, sensações e experiências, mas sempre se destacam as falas dos sujeitos pesquisados.
O entendimento de que conhecer os sujeitos em estudo significa engajar-se e comprometer-se com aquilo que se observa e cujos caminhos trilhados no processo de conhecimento e compreensão da pesquisa cartográfica não se faz de forma superficial, mas em parte se caracteriza em vivências em territórios que expressem os sentidos da existência e socializações coletivas.
A cartografia tem por objetivo compartilhar. A cientificidade é apenas uma parte não hierárquica da pesquisa, caso contrário, legitimaria as regras do método de ciência dominante onde a cientificidade objetiva a neutralidade que, de regra geral, rege o início, o meio e fim das ações.
A quantidade de idas a campo não deve ser determinada previamente, mas conduzida de acordo com as necessidades da pesquisa e a variável numérica deve ser insignificante. Parte do tempo do trabalho de campo tem que ser dedicada à promoção de diálogos para preparação das entrevistas realizadas.
A cartografia não é a imitação da pesquisa etnográfica formal, pois não se pretende imitar modelos. A cartografia é a arte do devir. A cartografia reproduz alguns procedimentos da pesquisa etnográfica, como a permanência em campo por períodos não determinados e acompanhando de processos.
As falas/discursos entre os sujeitos pesquisados, sempre que possível, devem ser acompanhadas de registros (escritos, fotográficos, sons).
Não é função da cartografia representar a realidade, mas acompanhar os processos de construção da realidade. Podemos, fundamentar nossa práticas cartográficas a partir do método indiciário definido por Carlo Ginzburg (1989) caracterizado pela análise de fenômenos e processos sociais realizados a partir do acompanhamento de pistas, faros, vestígios, indícios, sintomas e sinais, além da análise do rizoma destacada por Deleuze e Guattari (1995-97), Kastrup (2009) com a noção de acompanhamento de pistas.
AS CITAÇÕES
Citar para que?
Zaia Brandão (2002) em seu artigo denominado Pesquisa em Educação: conversas com pós-graduandos, demonstrou, ainda, profunda preocupação com os excessos de citações e a forma como os autores são utilizados de forma corriqueira nos trabalhos acadêmicos dissertações e teses:
Cita-se para demonstrar erudição, e um sentido muito vulgar: fulano (data) disse isto, aquilo e aquilo outro... Os autores, e o que é pior, bons autores, são chamados a referendar obviedades. Citamos tão mal porque, como leitores de textos acadêmicos, vemo-nos permanentemente remetidos a uma infinidade de citações e, na maioria das vezes, não temos a curiosidade despertada para os diversos sentidos que elas podem tomar no texto. Mas o uso indiscriminado de citações é extremamente prejudicial à argumentação e parece-me estar se tornando um vício que merece ser corrigido e a favor de uma produção mais rigorosa e cuidada, onde a citação chega no momento certo de reafirmar uma idéia, contestar um argumento ou ampliar uma reflexão (ZAIA, 2002, p. 18).
E mais:
Ultimamente tem-me chamado a atenção e, por que não dizer, provocado um certo constrangimento, a banalização com que tratamos certos autores e seus textos com uma supercitação, não só dos autores, mas dos mesmos trechos, o que ocorre porque frequentemente não se conhece o original. O agravante é que não é muito difícil, para o leitor experiente, perceber quando não se teve acesso ao texto original, pois, na maioria desses casos, o corpo do trabalho acaba por denunciar o caráter de adorno da citação de um autor que não foi incorporado como um interlocutor, cuja obra é chamada para adensar uma argumentação ou reflexão (ZAIA, 2002, p. 18).
Portanto, não basta citar a revelia. A maior parte dos acadêmicos acredita que quanto maior o número de citações presentes nos textos que constroem, maior será o caráter científico do texto. Mero engano! As citações devem ser imprescindíveis. O texto deve expressar a identidade de quem escreve, não reproduzindo, fielmente ou literalmente, de forma contínua ou repetitiva, idéias de autores abordados.
O CURRÍCULO
Como Construir um Currículo Acadêmico
O primeiro passo para um estudante construir um currículo acadêmico é fazer sua inscrição na Plataforma Lattes. Vale lembrar que informações pessoais, endereço e telefones de contatos devem estar disponíveis, apenas, na base de dados do CNPQ. Caso o acadêmico almeje participar de processos seletivos, certas informações não devem constar no currículo: CPF, RG.... Estes documentos, em geral, são cobrados em formato de Xerox.
Os acadêmicos, especialmente, os que se encontram nos anos iniciais de graduações, buscam, de forma desenfreada, construir currículos. A todo instante, participam de palestras, seminários, colóquios, mesas redondas, etc. Em geral, atuam como ouvintes. Estes procedimentos são importantes porque os acadêmicos ainda não possuem conhecimentos sólidos sobre determinadas temáticas que norteiam os cursos de suas formações. Porém, a participação como ouvintes, não é suficiente para construção de currículos acadêmicos. É preciso ir muito além.
Após a etapa inicial de amadurecimento acadêmico, onde teorias e autores já são mais entendíveis, se faz necessário aprimorar a construção do currículo. O acadêmico deve primar por: participações em grupos de pesquisas, pois terá a oportunidade de ler, escrever e participar da construção de artigos acadêmicos e executar pesquisas tornar-se um “Pesquisador Júnior.”; focar seus esforços na elaboração e publicação de artigos em revistas renomadas Qualis A1, A2, B1 e B2 ou periódicos e/ou revistas indexadas; ter participação em livros, organizar eventos acadêmicos de médio à grande porte, participar de mesas redondas, realizar comunicações em congressos nacionais e internacionais, difundir suas produções no universo acadêmico. Deixar de ser um acadêmico passivo e desenvolver a postura de um estudante “Pesquisador Júnior” ativo.
PROJETO DE MESTRADO
Fundamentos para passar no Mestrado
O acadêmico de graduação, pós-graduação em nível de especialização e demais graduados que já executam atividades profissionais ao elaborarem projetos de mestrado devem ter atenção especial a alguns requisitos tidos como fundamentais para o sucesso em processos seletivos dessa envergadura. Um conjunto de estratégias e ações devem ser desenvolvidos para que o projeto atenda ao interesse do pesquisador e do programa de pós-graduação.
A seguir apontamos as principais indagações, dúvidas e angústias sistematizadas em diálogos com pessoas interessadas em participar da seleção de Programas de Mestrado. A sistematização dos relatos não foi estruturada em entrevistas formais, não houve a limitação do numero de diálogos. Foram centenas ao longo de mais de uma década iniciada com minha entrada no Curso de Graduação em Geografia na Universidade Federal do Pará, em 1997, onde foram registrados os primeiros relatos de pessoas que estavam participando destes processos seletivos.
Primeiramente, é preciso ressaltar que diversos pretendentes à seleção de Mestrados, apresentaram dúvidas sobre o que pesquisar. Não tinham em mente, um tema, um assunto e demonstraram desconhecimento com o fazer o projeto de pesquisa. Neste sentido, é preciso fazer uma reflexão sobre o que o candidato tem de melhor, enquanto formação acadêmica, para a partir de então, esboçar um pré-projeto de pesquisa. Pesquisas não surgem sem indagações, sem aproximações e vivências com temáticas a serem detalhadas.
Determinados relatos apontavam para a continuidade de pesquisas desenvolvidas em TCC’s. Outros indicavam temáticas diferentes dos trabalhos de conclusão de cursos. O que determina o fazer pesquisa perpassa pela necessidade de conhecimento de determinados fenômenos independentes dos trabalhos desenvolvidos em TCC’s. Contudo, vale ressaltar que a participação em grupos de pesquisas e o aprofundamento de leituras de determinados assuntos aguçam e ampliam o universo do fazer pesquisa, pois o contato, conhecimento e compreensão de outros assuntos contribuem para o aumento do repertório cultural e científico do candidato.
Outra dica importante é sempre ir em busca de formação continuada e evitar a todo custo perder os vínculos com a pesquisa, com as Universidades, com as instituições de pesquisa, com a leitura sistemática, com a prática de elaboração de artigos e pesquisas em livros. Os formados que passaram a exercer atividades profissionais apontavam a falta de tempo como o fator determinante para o abandono das atividades acadêmicas. De fato, vivemos num país, onde poucos ganham muito e milhões se esforçam,na maior parte dos casos, em duplas jornadas de trabalho para aumentarem seus rendimentos, tal fato tem que ser considerado. Contudo, a aprovação num programa de mestrado tem haver com a dedicação a leituras, ao aprimoramento do currículo, a participação em programas de pesquisas, entre outros. Neste sentido, é preciso disponibilizar tempo, num calendário profissional apertado. Como passar no Mestrado e continuar trabalhando manhã, tarde e noite?
O candidato à mestrado deve estar atendo aos editais, saber as indicações, normas e necessidades da linha de pesquisa que vai indicar na seleção. O projeto deve estar “amarrado” a uma linha de pesquisa. É preciso conhecer o Lattes do futuro orientador do programa de pós-graduação, verificar o que ele tem pesquisado. Ler e tentar publicar, pelo menos um artigo sobre a temática proposta para estudo.
Devido à falta de tempo em decorrência do exercício profissional, ao desconhecimento de determinado assuntos da linha de pesquisa que selecionamos, a necessidade de realização de leituras obrigatórias na etapa seletiva para realização da prova escrita, ao não amadurecimento do currículo (publicações e participação em eventos científicos), que tal realizarmos um planejamento, definindo metas e ações para uma ideal preparação para seleção?
É importante a definição de um período mínimo de um ano de efetiva preparação ao Mestrado. Devemos ir à Universidades, conhecer e participar (selecionar certas atividades de projetos de pesquisas para intensa participação) de parte da vida acadêmica, comprar livros, investir em nossa formação, realizar resumos, pesquisar como se elabora artigo científico e tentar, a todo custo, elaborar e publicar, além de selecionar com antecedência qual ou quais processos seletivos de mestrado participar e pesquisar assuntos relacionados aos projetos que vamos construir.
A participação em programas de mestrado deve estar aliada à vontade de passar, mas é preciso “pé no chão”, esforço, dedicação, empenho, vontade de vencer e superação. Nada na vida acontece por acaso. Passamos no vestibular devido a dedicação de milhares de horas de estudo, fizemos cursos de extensão e especialização decorrente de esforços substanciais, passamos em concursos públicos, com bastante esforços e, assim deve ser com o mestrado que expressará metas, forças, vitórias e superações.
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[1] Estrutura de ciência “nascida” na Idade Média, aprimorada com o Positivismo no século XIX e que rege o fazer científico em variados ramos de produção de conhecimento. Para Deleuze e Guattari (1995), um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a idéia de ordem e de estabilidade do mundo, a idéia de que o passado se repete no futuro. Boaventura Santos (2010) argumenta que foi a mecânica newtoniana que deu as bases para a constituição da ciência moderna, sendo a mesma, uma máquina cartesiana de entender o mundo.
[2] O positivismo regularia a pesquisa social de forma a repetir os procedimentos de investigação científica dos cálculos matemáticos. A sociedade deveria ser concebida organizadamente de acordo com o ideário da Ordem e Progresso.
[3] A Ecologia de Saberes privilegia o diálogo entre saberes ocidentais e não ocidentais, confronta a oposição Norte e Sul entre os países. A Ecologia de Saberes tenta ultrapassar as linhas abissais geográficas e metafóricas impostas pela ciência dominante (Santos, 2010).
[4] A habilidade da escrita cartográfica se aprende com a rotina da pesquisa, com a repetição e a constância das práticas de registro. Os relatos não são expressões de uma ação forçosa, mas são experiências internalizadas de forma efervescentes cuja erupção de idéias traz a cena processos culturais (KASTRUP, 2009)
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